19/01/2026
A ALMA PRECISA DE TEMPO
Estava aqui revendo algumas fotos dos nossos dias de pausa e, a esse propósito, lembrei-me do que dizia o grande fotógrafo Sebastião Salgado:
“Para fazer uma fotografia, é mesmo necessário experimentar o prazer de esperar.”
É certo que ele não tinha ilusões sobre a distância que hoje nos separa desse prazer.
Sua certeza nascia da mesma verdade daqueles que respeitam o tempo, cuja vida permanece completamente artesanal.
Assim como Salgado, dizemos todos os dias, a nós mesmos e a cada um de vocês, por meio de cada pão-poema que fermenta naturalmente por longas horas — 24, 48, por vezes 72 — que esperar não é uma perda de tempo, mas tempo necessário para ser.
Para a mais bela fotografia, o mais saboroso pão ancestral e, como diziam os místicos, para que as roseiras floresçam, precisamos nos libertar da pressão do imediato e do peso das solicitações, esperando para que, em certos instantes “sem motivo”, também floresçamos.
Da atividade criativa ao repouso criador, desse intervalo entre um fazer e outro, nasce a necessidade de nos reconciliarmos com o tempo.
Do latim "otium", ócio, aquilo que chamamos de dias de pausa, significa descanso, inatividade.
Em sua raiz grega, "skholé", significa ter tempo para pensar, para voltar o olhar à beleza e às coisas imutáveis.
O filósofo Josef Pieper nos lembra que o ócio não encontra seu sentido apenas no descanso corporal ou na recuperação psíquica, mas na capacidade de contemplar o todo.
Viver dias de pausa é condição para ouvir o que se passa dentro de nós;
É abrir-se, com serenidade, ao fluxo de imagens e sentimentos.
É permitir que os mundos interior e exterior se encontrem, para voltarmos a ser "pessoas inteiras".
Assim como esperamos até que farinha, água e sal se tornem pão, os dias de pausa também nos permitem ser.
E, sendo, deixamo-nos fluir, como numa brincadeira sem objetivo, onde nascem imaginação, sentimentos, pães, poemas, rosas.
Vivemos dias de pausa muito especiais em um lugar onde tudo vem da raiz, tudo está vivo e nos relembra que também somos parte disso.
De cada experiência, registrei cada pequeno trânsito de sentido para comover e inspirar vocês, Família Florescence.