11/07/2025
**Texto e foto de 2014, num dia de lições em algum lugar do velho leste mineiro.
Só depois de "velho" é que Seu Zé Nascimento, morador, pequeno produtor rural e contador de histórias na zona rural no leste mineiro, passou a entender o que é o tal do "tombamento" que o povo da TV tanto fala: "No jornal, volta e meia, dizem que um prédio, uma casa ou até uma ponte foram tombadas ( como patrimônio histórico)."
Antes, Seu Zé achava que iriam "derrubar o 'trem'"
"Aqui na roça há muita casa, casarão, barracão, com bastante importância".
Locais onde coisas marcantes aconteceram.
Pessoas nasceram ali naqueles quartos, famílias se multiplicaram nesses cantinhos, sendo que alguns filhos e netos buscaram a vida em outra localidade.
Uma hora o horizonte se expande.
Alguns que ficaram, acreditem, morreram nos cômodos em que nasceram ao lado de fotografias de quando eram crianças. Em alguns casos, ele relata, confunde-se quem é pai, filho ou avô.
São desenhos em porta-retratos.
"Isso não é ‘história’, é verdade", ratifica.
Quando chamamos de ruínas, Seu Zé completa: "Sim, estão ruins mesmo, mas não se pode fazer nada além de guardar as lembranças."
Ele compreende que chega uma hora em que é necessário buscar um canto melhor para viver, por questão de saúde, educação e até segurança. No entanto, Zé confessa : " dá muita tristeza quando a gente vê uma casinha dessas despencando".
E como ele está sempre por perto, não há como não recordar dessas coisas. Os parentes que vêm de longe, de vez em quando, nas férias, têm o mesmo sentimento.
Colocar-se no lugar deste povo dá uma sensação absurda de nostalgia. A impressão que se dá é que as janelas têm marcas de cotovelos. E que qualquer temporal vai jogar tudo aquilo no chão.
Mas a tradição perpetua.
As lágrimas indicam que a saudade também.
E não dá para negar que há uma certa dose de orgulho, afinal, Seu Zé e seu povo têm a narrativa mais preservada e viva do que a maioria de nós.
E ele não perde o bom humor: "aqui as casas tombam sozinhas", conclui o protagonista.