03/05/2026
Hoje, vivendo no Acre e acompanhando de perto a realidade da floresta, f**a cada vez mais evidente uma situação que precisa ser dita com clareza: a expansão da ayahuasca para fora do seu território de origem tem acontecido, muitas vezes, de forma desconectada da responsabilidade que essa medicina exige.
Muitas pessoas vêm de fora em busca de experiências mais baratas, de fácil acesso, quase como se fosse um produto qualquer. Mas a ayahuasca não é produto. É tradição, é cultura viva, é conhecimento ancestral que carrega fundamentos profundos — desde o plantio até o preparo, passando pelo respeito à floresta e às comunidades que sustentam tudo isso.
O que preocupa é que, em muitos casos, há uma exploração dos recursos locais sem retorno justo. Colhe-se o cipó, utilizam-se as folhas, realiza-se o preparo da medicina, mas não há o cuidado de replantar, de preservar, de fortalecer quem mantém essa tradição viva. É um ciclo que se rompe — e quando isso acontece, não é só a floresta que sofre, mas toda a essência do trabalho espiritual envolvido.
Além disso, existe uma banalização do processo. A medicina sai do Acre e chega a grandes centros como São Paulo, sendo oferecida muitas vezes sem os critérios adequados. Poucos conhecem, de fato, o rigor necessário no preparo: a higiene, a seleção correta das plantas, o tempo de cozimento, a intenção colocada em cada etapa. Tudo isso faz diferença — e muita.
A ayahuasca não pode ser tratada como mercadoria ou tendência. Ela exige respeito, compromisso e responsabilidade. Quem realmente entende essa medicina sabe que ela começa muito antes da cerimônia e continua muito depois dela.
Valorizar a origem é essencial. Fortalecer as comunidades locais, respeitar os ciclos da natureza, plantar aquilo que se colhe — isso não é apenas consciência ambiental, é fundamento espiritual.
Se queremos que essa medicina continue existindo com força e verdade, precisamos mudar a forma como nos relacionamos com ela. Não se trata de acesso fácil ou preço baixo. Trata-se de respeito