A minha infância foi marcada pela liberdade e simplicidade, vivíamos na roça, não tínhamos a preocupação com roubos e nem com essa correria louca! Liberdade e boa alimentação - tínhamos verduras na horta, galinha, cachorros e porcos no quintal; cavalos puxando a charrete cheia de milho, feijão e arroz. Bebendo água na mina, chupando frutas no pomar; brincando em árvores, correndo na chuva e escor
regando no barro; caminhadas no mato procurando por frutos do serrado. Cresci vendo minha mãe cuidar da casa, da cozinha e dos filhos. Varrendo o forno à lenha para fazer os quitutes e quitandas; as tamancas de massa de polvilho a secar ao sol, que ao olhar doíam às vistas, mas de onde saiam os biscoitos mais saborosos. O nosso jardim era cheio de Alecrim, Rosas Brancas, Açafrão, Losna, Arruda, Manjericão, Hortelã, para uso terapêutico em nossas dores de barriga, dor no estômago e tosse. Os machucados e torções de pés eram cuidados com ervas maceradas e algum tipo de manteiga. Estava ali a mágica da alquimia das plantas. Nossos sabões eram feitos de “Diquada” - uma mistura de cinzas de lenha e sebo que se transformavam em uma massa firme e branca. Eram feitos em grandes tachos, em fornalha, mexia-se sem parar o preparado à espera do ponto certo para bater a pasta e deixar esfriar. Adorávamos carimbar nossas mãos no sabão. Lembranças de liberdade, amor, carinho e cuidados. Meu primeiro emprego foi de balconista em uma loja de aviamento; bancária e atualmente funcionária pública. Tenho dois filhos maravilhosos e um marido amoroso e preocupado com a família. Mesmo assim, em 2013, decepcionada com pessoas que me machucaram, fui tomada de sentimento de tristeza e melancolia. Esta tristeza se estendeu ao longo de meses, foram situações dolorosas e constrangedoras que interferiu na minha saúde física, emocional e até familiar. Vi parte de meus sonhos e planejamento se despedaçarem ao vento. As crises de ansiedade e taquicardia tornaram-se tão frequentes que levou-me algumas vezes a hospitais. No início deste ano (2015), fui levada a tomar decisões a fim de cuidar de minha saúde e recuperar-me. Procurei estar mais próxima da minha família, fazer o que gosto, como estar em contato com a natureza - tranquilidade e serenidade. Voltei a cuidar de meu canteiro de ervas, das minhas plantas, da minha horta. Com a ajuda de meu marido, realizei uma promessa antiga, meu círculo de bananeiras para águas cinzas no sítio. E voltei a fazer meu sabão caseiro. Ah, meu sabão caseiro! Sim, aquele sabão natural como feito na época de minha infância, com a diferença que uso óleos vegetais. E foi estudando os ingredientes naturais, tais como essências, extratos orgânicos, pigmentos minerais, saponificação de óleos graxos e lixivias, que me embrenhei pela a arte da saboaria. Encantei com a história dos primeiros sabões e foi aí que encontrei receitas portuguesas naturais, voltadas para o uso consciente em respeito ao meio ambiente. Nesse caminho, deparei com a generosidade de amigos que fiz do outro lado do Atlântico e do norte do Brasil. Aliado a isso, entendi que integrar os produtos naturais a nossa rotina diária é uma questão de alternativa pelo natural e por um menor impacto ambiental. O meu atelier é meu espaço de segurança, lugar que eu me dou o direito de criar e recriar, modificar, melhorar, acrescentar aditivos, cor e aromas, cuidadosamente calculados para atender as necessidades para quais estão sendo criados. A arte da saboaria é gratificante, de tal forma, que quando desenformo meu sabão, que sinto sua textura e aroma, provoca em mim uma libertação emocional e energética – um bem-estar que eleva minha autoestima. Quando estou no fabrico de sabonetes, sinto dentro de mim aquele sentimento de liberdade e simplicidade da época da minha infância. Ver a transformação alquímica das propriedades naturais para se criar o Sabão Natural e Artesanal, como diz uma amiga portuguesa, é um "regalo"! E aí está um pouquinho da minha história - funcionária pública por profissão, e nas horas vagas, saboeira por paixão.